sábado, 3 de julho de 2010

Faz de conta - parte 1

Põe uma saia e faz-de-conta que é uma bailarina. Dança descalça pela cozinha e logo depois desaparece para o quarto, onde se deita no chão. Olha as estrelas no seu céu imaginário e ouve o som das ondas da sua praia de fingir, com areia que se enfia entre os dedos dos pés e o mar frio que a chama para nadar com a Pequena sereia e o peixe Nemo.

Parece um sonho, brincadeira de crianças, imaginário que depois desaparece quando crescem, mas afinal o brincar e "fazer-de-conta que", é não apenas uma forma de entretenimento mas uma concepção educativa com valor próprio no desenrolar da vida da criança, desde tenra idade.

Com o desenvolvimento da educação a partir da criança, as atividades lúdicas passaram a ser valorizadas na escola como poderosas ferramentas para a aprendizagem de conteúdos "científicos" e de comportamentos socialmente desejáveis.


"Agora eu sou a mãe e tu a filha, tá bem?"

Pestalozzi, Drecoly, Montessori, Claparéde, John Dewey, Wallon, Piaget, Vygotsky, Freinet, Peter Slade e Bruner, entre outros, já se tinham debruçado na sua época sobre a importância do jogo no desenvolvimento intelectual da criança e, ainda hoje, este tema desperta o interesse de grandes pesquisadores como Gilles Brougére, Artin Goncü, Suzanne Gaskins, Bárbara Rogoff, James Wertsch, Tia Tulviste, Bert van Oers, Tizuko Kishimoto, Gisela Wajskop e Zilma Oliveira, entre outros.
Apesar de esta ideia de que o jogo é educacionalmente importante já estar presente no pensamento de Platão e Aristóteles, é apenas nos séculos XVIII e XIX que com as pedagogias advogadas respectivamente por Rousseau e Fröbel, se estabeleceram as bases necessárias para a construção de práticas educativas que passam a incorporar o lúdico de forma sistemática na educação e é com a difusão da ideia da Escola Nova que a crença no valor educativo do jogo atinge o seu ponto fulcral.
Brougére e os seus colaboradores destacam o que seriam os atributos essenciais do jogo:
(a) o conceito de jogo está sempre impregnado de valores e concepções do mundo de determinada cultura; (b) todo jogo funciona segundo um sistema de regras explícitas ou implícitas;
(c) o jogo pode ser materializado em objectos (por exemplo, nas peças e tabuleiro do jogo de damas).

De acordo com a proposta terminológica de Tizuko a palavra brincadeira deve ser utilizada apenas para se referir à "descrição de uma conduta estruturada, com regras" ou à acção que a criança desenvolve no acto de brincar. "

Ora, a brincadeira do faz-de-conta, por ser uma actividade que não prescinde do uso da imaginação, contém já - em si mesma - pelo menos uma regra: a criança deve agir de acordo com os significados culturais dos objectos e relações sociais representados dramaticamente no seu "faz-de-conta" lúdico. Quer dizer, ela, a criança, precisa actuar no faz-de-conta de maneira que os significados eventualmente emprestados a si mesma, aos objetos, parceiros de brincadeira e às suas acções sejam "verosímeis", adequados a determinada matriz de comportamento cultural, ou seja, que pareçam "verdadeiros":

"A criança imagina-se como mãe e a boneca como criança e, dessa forma, deve obedecer ás regras do comportamento maternal.(...) Sempre que há uma situação imaginária no brinquedo [faz-de-conta], há regras - não as regras previamente formuladas e que mudam durante o jogo, mas aquelas que têm sua origem na própria situação imaginária". Assim sendo e, segundo Vygotsky, a noção de que uma criança pode se comportar numa situação imaginária sem regras [assimilação deformante] é simplesmente incorreta.

Segundo Lopes, brincar é uma das actividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia. Enquanto brinca a criança pode desenvolver algumas capacidades essenciais como a imaginação, a atenção, a memória e a imitação. Amadurecem também algumas capacidades de socialização, através da interação, da utilização e da experimentação de regras e papéis sociais.

Pouco se conhece do comportamento de crianças em situações de escolha livre e de brincadeira, embora estes momentos sejam bastante observados no quotidiano das crianças, seja em casa, seja junto dos seus pares na sala de Creche ou J.Infância.



Fontes consultadas:
- http://br.monografias.com/trabalhos913/crianca-pre-escolar/crianca-pre-escolar2.shtml
- LOPES, Vanessa Gomes, Linguagem do Corpo e Movimento, Curitiba, 2006;
- http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0358.pdf

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