sábado, 4 de dezembro de 2010

O bebé e os seus papás - vinculação e comunicação

Ao observar o meu bebé crescer tenho reparado na simplicidade com que ele, que pouco mais de 50 cm tem, consegue dominar a minha vida e a do pai. Ele é um poço de sabedoria que usa todas as suas artimanhas para nos levar a fazer o que quer. E nós, simplesmente, fazemos.

Há 150 anos, pela mão de Freud, aventurámo-nos à procura do inconsciente," descobrindo muita coisa até aí secreta. "Hoje a investigação científica (...) propõe-nos «regredir» e voltar ao princípio, ir ao fundo de nós mesmos (...) e como se desenvolve o feto desde a concepção até ao nascimento," através de métodos como as ecografias, os ultra-sons, as fotografias e os filmes realizados no interior do ventre humano.(1)

Diversos autores têm vindo a defender ao longo dos anos que os bebés não são, afinal, tábuas rasas nem folhas em branco: "o que é espantoso (...) é verificar a quantidade de coisas que aquele minúsculo pedaço de vida já sabe."(1)


Sabe por exemplo, usar o choro para chamar a atenção para as suas necessidades e, se antes elas passavam apenas pela alimentação e pelo desconforto de uma dor ou cólica, agora o choro serve também para exigir a nossa presença e companhia, bem como para pedir que o agarremos no colo e o embalemos. Pára de chorar quando o seu objectivo foi conseguido. E nós, experimentamos uma sensação de dever cumprido, que se manifesta em alívio e felicidade.

Começa-se agora a perceber que "antes de nascer, o feto já tem uma série de competências físicas e psicológicas."(2) Prova disso, é a capacidade que o bebé tem de reconhecer "o cheiro e a voz da mãe desde sempre."(3) A sua primeira imagem mental é a própria figura materna, sendo que "o rosto humano é um importante ponto de interesse para o bebé."(3)

Ao vir ao mundo, a criança de Piaget chega "geneticamente equipada para produzir certas respostas motoras, que constituem a fundação sobre a qual as estruturas mentais posteriores se irão construir."(4) Também Sigmund Freud veio contradizer a teoria da "tábua rasa" e de que até aos 6 anos as crianças eram seres incapazes de produzir pensamento, teoria que dizia que "eram demasiado novas para saber ou sentir qualquer coisa."(4) Tal como Freud caracterizou uma série de Estádios Emocionais pelas quais as crianças passam, também "Piaget descobriu que as crianças atravessam uma sequência de Estádios Cognitivos."(4)

Para Piaget, a "actividade cognitiva durante o estádio-sensório motor baseia-se principalmente na experiência imediata, através dos sentidos."(4) No caso dos bebés até aos 2 anos, a interacção através dos sentidos é "uma actividade prática. Na ausência de linguagem para designar as experiências ou para simbolizar e, portanto, recordar os acontecimentos e ideias, as crianças estão tremendamente limitadas à experiência imediata: vêem e sentem o que está a acontecer, mas não têm forma de categorizar a sua experiência."(4) Esta forma de Piaget ver a cognição, não colocava nada entre a criança e o meio: a relação é directa.

Segundo Brazzelton, as interacções recíprocas entre o bebé e os seus pais nos primeiros meses de vida ajudam-no "a aprender a controlar ou modular o seu comportamento e os seus sentimentos."(4) E não só. Também "o sentido de identidade, de vontade, de finalidade, de afirmação e o começo do pensamento lógico causal advém todos destas maravilhosas interacção recíprocas."(4) Ele possui logo que nasce a capacidade de usar diferentes expressões faciais que utilizam tanto perante um rosto humando, como com um objecto inanimado. Tanto a frequência destas expressões como das suas vocalizações aumentam se forem correspondidos: se sorrir para o seu bebé aumenta significativamente as hipóteses de resposta.

Aos poucos fui também distinguindo no meu filho as suas expressões. os seus lindos sorrisos... o beicinho... o seu olhar fixo em mim enquanto abre e fecha as mãos. É a partir da sexta semana "que o sistema visual atinge um nível de desenvolvimento que lhe permite olhar pela primeira vez, fixamente, os olhos da mãe."(3) É nesta altura que o bebé inicia com a mãe um jogo de "namoro e cumplicidade, em que se estabelece uma sintonia e ritmo de estímulo/resposta bastante gratificante para ambos."(3)

A aprendizagem pela qual mãe e bebé passam é recíproca e comporta três níveis. "No primeiro estádio, a mãe/pai aprende a como ajudar o filho recém-nascido a manter um estado de alerta (1-3 semanas). No segundo estádio, (3-8 semanas), no estado de alerta ele produzirá sorrisos e vocalizações que são respondidos pelo adulto. No terceiro estádio (8-16 semanas) estes sinais são reproduzidos em jogos em que as vocalizações e/ou sorrisos são gerados em surtos de quatro ou mais, imitados pelo adulto, numa série de surtos ou jogos recíprocos. O ritmo e a reciprocidade são aprendidos nestes jogos."(5)

"Mãe e filho sentem-se amados um pelo outro."
"É um processo emocional muito forte e intuitivo" - o primeiro passo que o bebé dá no sentido da socialização. Desta forma "ele aprende a relacionar-se com os outros e faz a ligação de causa/efeito entre o seu comportamento e o de outra pessoa."(3)

"Quando reproduzimos aquilo que o bebé acabou de fazer, estamos a estimular o seu sistema de feedback interno, bem como o externo."(5)

"Por volta do 8º ou 9º mês, a criança começa então a aperceber-se de um mundo social extra-mãe, quando começa a ter reacções negativas em relação a todas as pessoas que se aproximam dele." A esta situação chamam "angústia de estranho."(3) Entre os 12 e os 24 meses, desenvolve também a consciência da permanência do objecto.

Mais tarde, por volta dos dois anos e meio, "quando a criança já fala, deverá demonstrar a capacidade de se envolver em longas cadeias de interacção (interacções recíprocas) que têm a ver com as suas diferentes emoções, e com os seus sentimentos e comportamentos. Estes constroem-se a partir dos padrões predoces já estabelecidos na idade dos 2 a 4 meses."(5)

Em jeito de conclusão, podemos dizer tendo em conta os autores citados que este diálogo entre mãe e bebé é a forma mais primitiva de comunicação e começa ainda dentro do ventre e conduz ao "desenvolvimento da mente e do cérebro e das capacidades de raciocínio e pensamento."(5) É importante percebermos os contornos deste estádio de desenvolvimento, para sabermos o que podemos oferecer a um bebé pequeno, em termos de desafios. Os brinquedos devem ser pensados e adequados a cada faixa etária. Um móbil de berço faz sentido nos primeiros dias de vida do bebé pelo som, não pela imagem, ou seja, ele interessa-se pela música que o objecto emana, mas não pelos bonecos que giram pois não os consegue ver nos primeiros dias. Aos poucos, vai descobrindo que há ali algo a girar e a interessar-se pelas suas cores e pelo movimento dos objectos.



Bibliografia:

(1)-CASTRO, Ana Vieira, "Tão pequeno e tão sábio", Pais e Filhos, Julho de 2007;
(2)-CALDEIRA, Pedro, psicólogo, in CASTRO, 2007;
(3)-CARMO, Sofia, "Mãe e bebé, uma dupla de sucesso", Pais e Filhos, Março de 2000;
(4)-SPRINTHALL, Norman e SPRINTHALL, Richard, "Psicologia Educacional", Mc GrawHill;
(5)-BRAZELTON, Berry, GREENSPAN, Stanley, "A criança e o seu mundo", Editorial Presença;

1 comentário:

Vera disse...

Curioso o meu Tiago está com 7 semanas e é como citaste aqui, ele está a começar a sorrir mais frequentemente, começa a fazer uns barulhinhos que imitamos sempre (nós somos uns macaquinhos), e o mais curioso é o olhar dele para mim, acho que já não me vê como uma Mama gigante com olhos, mas sim como a Mãe que também gosta da atenção do seu filho sem segundas intenções :P
Ai isto é uma aprendizagem constante.
Boa semana
Vera